Eu quero ser um homem impotente, mas não quero casar

Um décimo terceiro desvio à esquerda: quem pode?

Impotência é a potência de não fazer e não apenas a ausência de potência. Há, assim, uma pequena revolução na defesa, por exemplo, da impotência masculina. No sentido que quero dar à palavra, o homem impotente não é aquele que não pode tem ereção, é aquele que pode não ter ereção, é aquele que está salvo da obrigação de potência, de se mostrar sempre ereto.

Não é à toa que proliferam remédios para tratar a impotência que é, dessa maneira, muito mais uma “disfunção” política do que biológica. É preciso “remediar” a potência de não fazer, pois é a noção de que “você pode”, “nós podemos” (yes, we can) que aparece, de maneira reveladora, como a “verdadeira potência”.

Divulga-se que tudo se pode fazer, obscurecendo a importância do que se pode não fazer, como maneira de corresponder às necessidade do próprio capitalismo contemporâneo, que exige de nós, cada vez mais, a capacidade de ser qualquer coisa, de poder fazer qualquer coisa (nos limites mais ou menos fluidos dessas necessidades).

Poder não querer, não fazer, não ter é diferente, obviamente, de não poder querer, fazer, ter. Poder não ser é uma forma de resistência. O homem impotente (sexualmente) seria o homem que pode não querer estar sempre ereto, o que guarda a potência de não ser potente. É o oposto do homem impotente por não poder ser ereto (por qualquer motivo: fisiológico, psicológico), que não tem escolha – o não é, efetivamente, uma necessidade, o não nega-lhe a liberdade.

A impotência de não ser, no entanto, é a que gera a liberdade.

(É um raciocínio parecido quando gays e lésbicas dizem que querem poder não casar. A verdadeira bandeira é pelo direito de não casar. Pois hoje, o que há, é o não poder casar, negação da potência, da liberdade.)

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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Uma resposta para Eu quero ser um homem impotente, mas não quero casar

  1. Anabela disse:

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