Monogamia, democracia e a tradicional família

Um décimo segundo desvio à esquerda. Pergunta: quer casar comigos?

Em recente entrevista ao site Salon, o professor Joseph Heinrich da University of British Columbia defende haver uma estreita relação entre monogamia e democracia. Em suma, os argumentos são os seguintes:

  • há uma mal social associado ao fato de homens se casarem com várias mulheres;
  • a monogamia redirecionaria a motivação masculina de maneira que diminuiria índices de criminalidade, aumentaria a renda per capita e ofereceria melhores oportunidades para as crianças;
  • a monogamia precede, e acompanha, o surgimento de ideais democráticos (foi na Atenas clássica que algumas das primeiras leis a favor da monogamia foram instituídas);
  • a monogamia seria uma forma de estabelecer a igualdade entre os cidadãos, já que, assim, haveria mulheres disponíveis para todos os machos atenienses e não uma concentração de mulheres a par com a concentração de renda;
  • e eu cito, literalmente, o distinto professor em sua entrevista: “By saying that both the king and the peasant can only have one wife each, it’s the first step toward saying that all men were created equal.” (Dizer que tanto o rei quanto o camponês só podem ter uma mulher é o primeiro passo para dizer que todos os homens são criados iguais);
  • casar – monogamicamente – diminui as taxas de testosterona, o que é bom, de acordo com Heinrich, pois níveis altos de testosterona levam os homens a procurar mais parceiras e a correr mais riscos;
  • quando um homem se casa com várias mulheres, acaba-se criando uma subclasse de homens que não têm parceiras, e tais homens tendem a criar problemas: comentem crimes e se metem a abusar das drogas.

Esse é um resumo que, se simplifica, não deixa de fazer jus à argumentação do professor. O que me interessou imediatamente na entrevista foi a associação entre as esferas públicas e privadas: a forma como se organiza a vida “em casa” está intimamente relacionada à organização da vida pública. Essa relação é urgente e precisa ser pensada. Mas não nos termos simplistas, mecaniscistas e deterministas propostos por Heinrich.

Em 1999, Natalie Angier, em um artigo intitulado Men, Women, Sex and Darwin, já desmantelava, com marteladas precisa e elegantes, o pensamento viciado da psicologia evolucionista, aquela que quer explicar os modos da natureza humana ao ponto de chegar à “essência” do que é ser homem e do que é ser mulher. É um modo de identificar o gênero, ao essencializa-lo.

Angier aponta as principais premissas da psicologia evolucionista em relação ao gênero e à formação de “casais”: 1. homens são mais promíscuos e menos reservados sexualmente do que as mulheres; 2. as mulheres são inerentemente mais interessadas por relacionamentos estáveis do que os homens; 3. as mulheres são naturalmente atraídas por homens de alto status e que demonstrem ter muitos recursos materiais; 4. os homens são naturalmente atraídos pela beleza e pela juventude; 5. as preferências humanas foram estabelecidas milhares de anos atrás e, desde então, não mudaram muito.  Notar como a palavra “naturalmente” (“naturally”) aparece constantemente nesse sumário: não é à toa – afinal, sempre fomos naturalmente assim e assim permaneceremos. Nesse ponto, a psicologia evolucionista não se distingue dos discursos religiosos: aqui, deus quis assim; lá, foi a natureza que quis. determinados que estamos, por ordem divina ou natural, a perpetuar uma visão masculinista do mundo.

Logo, pois, é “natural” que a monogamia seja mais democrática, pois ela estabelece uma espécie de redistribuição de renda, uma reforma agrária espúria onde a lógica é que, com uma mulher para cada homem, todos os homens são igualmente contemplados com sua forma de controle social bem particular, pois não faltando parceiras, não sobrarão homens que ameacem, com seu excesso de testosterona espumando pela boca, a paz e a ordem públicas. Já que o homem seria poligâmico “por natureza”, o casamento surge como forma de equilibrar a produtividade, pois ao concentrar seus esforços em uma única esposa, sobrariam energias para o que realmente interessa: produzir, produzir, produzir.

É nesse sentido que, na entrevista dada por Heinrich, a relação com a democracia, como igualdade radical, não aparece. Quando fala dos perigos da poligamia, o psicólogo apenas avalia a possibilidade de um homem casando com várias mulheres e nunca o inverso. Ele reproduz a ideia de que o homem, com seu apetite voraz, é quem “naturalmente” procuraria várias mulheres para se casar. Nao me interessa especular os ganhos ou perdas que estariam envolvidos na poligamia feminina em comparação com a masculina. Porque acredito que o problema é anterior.

Democracia radical é a possibilidade de uma mulher casar com vários homens e várias mulheres que, por sua vez, poderiam casar com vários outros homens e outras mulheres. Democracia radical é admitir que se redesenhe o mundo a partir de uma configuração infinita de relacionamentos.

Para tornar política – e pública – a questão do casamento, é preciso ir muito além do desentendimento a respeito da superioridade do casamento monogâmico em relação ao poligâmico, ou da poligamia feminina em relação à masculina. O que está em jogo, o verdadeiro desentendimento, é sobre a noção mesma de casamento. O problema diz respeito ao que se quer dizer quando se fala “marido” e “esposa” em termos das obrigações sociais que estão atreladas a essas palavras. É preciso desidentificar os gêneros, ou seja admitir a luta por novas configurações de afeto, novas possíveis famílias.

O primeiro passo radicalmente democrático é aquele que estabelece uma igualdade fundamental na definição dos afetos, de tal maneira que não interessam os cálculos de produtividade social. Uma igualdade tão profunda que a noção mesma de homem/mulher, macho/fêmea, esposa/marido perde seu sentido. A monogamia estaria a serviço de uma democracia fraca, caduca, doente, que existe como forma de controle, como amortecimento dos afetos e defesa do capital. A serviço de um princípio espúrio – controlar o macho em seu instinto de ter todas as fêmeas que desejar, defender os interesses dos machos mais fracos.

A democracia radical parte do príncipio de que somos corpos igualmente desejantes e que cada redefinição dos desenhos da vida “privada” é, também, uma forma de traçar outros possíveis na esfera pública.

Já pensou se um dia extinguíssemos a instituição da herança?


Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
Esse post foi publicado em Corpo, Gênero, Política e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Monogamia, democracia e a tradicional família

  1. Ramayana Lira disse:

    Quem dera o estado fosse abrigo e não camisa de força, no que diz respeito à intervenção nos negócios “familiares”…

  2. Eneida Melo disse:

    Eu sou monogâmica, mas a idéia de mulheres sendo distribuídas em partes iguais me incomodou muito.

    E, sendo consensual, o Estado não tem nada que se meter no relacionamento pessoal das pessoas, sejam eles unos ou múltiplos, sejam hetero, homo ou bi.

  3. Ramayana Lira disse:

    Heinrich é uma spécie de ciclope: enxerga com um olho só – o do sexismo.

  4. karlavanco disse:

    Me parece evidente também que a noção dele de igualdade é entre os homens. Então, além de ser uma ideia falha de igualdade, ela é limitada pois não há espaço para a igualdade entre homens e mulheres.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s