Carta aberta a Marta Vieira da Silva

Um décimo primeiro desvio à esquerda. Pergunta: mulher jogando futebol? Onde já se viu isso?

Cara Marta

Talvez morando aí nos EUA você tenha se deparado com o termo starstruck. Isso mesmo: deslumbrada com a estrela. Como eu me reconheço. Por isso te escrevo, a estrela do time, quando, na verdade, gostaria de me dirigir a toda a seleção brasileira feminina de futebol. Escrevo para você, em especial, para falar com todas, como quem canta o sol reconhecendo o universo.

A derrota contra os EUA me doeu como poucas. Amo futebol. Ao contrário do que se joga com a mão, o domínio da bola com o pé dá a luz ao imponderável. Minha teoria: os EUA tem times maravilhosos com as mãos: basquete, vôlei, tênis (duplas), beisebol… Porque esportes lá são calculados com a frieza dos dedos sobre o ábaco.

O futebol é tão brasileiro quanto o risco de um chute ao alto. No risco, então, perdemos. É engraçado quando se usa a primeira pessoa do plural para falar de times nacionais. Perdemos. Porque eu me implico em vocês, porque o investimento afetivo é alto. No conforto, abrigo da minha lata de cerveja, das minhas fritas em pacote, da projeção da minha falta de coordenação na graça das corridas, a minha falta de jeito compensada na precisão do passe, na certeza do chute, nesse conforto, nesse abrigo, eu queria ser vocês. Starstruck.

Os pés, Marta, os pés…qualquer coisa, a potência, tudo nos pés. Mais de 4000 metros quadrados em que os pés dançam, tropeçam, furam, vazam. Erram. Errar no futebol é ambíguo: é o contrário de acerto (é horrível errar – a bola escapa do domínio; o chute é enviesado; a falta, desnecessária); mas é, também, errar como sinônimo de vaguear, de percorrer o campo sem destino, de andar para longe da marcação que sufoca o talento. Errar, nesse segundo sentido, é escapar dos desígnios táticos, improviso que faz de Daiane atacante e de Cristiane a melhor defensora para desviar a bola cruzada na área da Andreia.

Meu afeto por essa seleção é incontornável. Eu me entrego a vocês com a mesma paixão que me entrego a um filme de Godard, a um romance de Guimarães Rosa. Vocês são banquete estético.

Em primeiro lugar porque são (a despeito de comentários encharcados de ressentimento machista) lindas. Marta, teu sorriso de lado, tirando sarro de um mundo, é impagável. A Erika é bela com seus longos cabelos loiros que balançam no ataque e na defesa, rosto de caçadora. É charmosa a figura delgada da Aline, decidida, heroína romântica. Maurine é linda como a irmã mais nova, moleca. Fabiana é bela brejeira. Enfim, vocês são lindas e, por favor, não acreditem se houver disposição ao contrário.

Mas o banquete estético que realmente importa é o que acontece em campo. No credo sexista, arcaico, medieval que ainda reina em certos segmentos da sociedade brasileira mulheres que se entregam a desafios impertinentes como o futebol devem se provar não como jogadoras, mas como “mulheres”, ideal objetificado de feminilidade. Desculpe o apelo ao vernáculo, Marta querida (se bem que eu li em seus lábios expletivos deliciosamente incomportados durante os jogos), mas só posso dizer “fodam-se”. Fodam-se esses que vêem no futebol feminino apenas expressão de uma sexualidade “desviante”. No Brasil, infelizmente, o corpo da mulher ainda é visto como campo exclusivo de uma energia passiva, frágil. Se há algo que podemos aprender com você e com a seleção brasileira, Marta, é que o corpo da mulher é, simplesmente, da mulher. Vocês no ensinam a dor e a delícia de ser soberana sobre o corpo, de colocá-lo muito além das experiências a que o senso comum quer restringi-lo. Vocês são, Marta, politicamente indispensáveis para reposicionarmos o corpo da mulher: inclusive nesses espaços em que a tradição machista acredita que ele – o corpo – não pertence.

O jogo é lindo como vocês. Futebol, como eu disse, é imponderável. Os pés são parte pouco nobre: cabeça, mãos, braços, genitália, são o filé. Culturalmente, pouco se fala nos pés. Quando mencionados, dizem respeito à humilhação: jogar-se aos pés. Isso porque são os pés que nos ligam à terra. Nada assusta mais do que lembrar dessa nossa inevitável conexão com a terra. Futebol é o mais imanente dos esportes, aquele que nos lembra de maneira mais imediata nossa relação com o mundo, com o aqui e o agora. Se há glória, no futebol, é porque ela vem dos pés. É um esporte humilde, se pensarmos bem.

Você, Marta, faz brilhar essa humildade imanente do futebol. Porque o teu corpo, do que consigo ver na televisão limitadora (e olha que ignoro completamente os comentários dos locutores/comentaristas – me cansam os jargões), parece perder as juntas. Teu corpo parece ora se expandir, ora se dissolver. Marta, me responde, de que é feito teu corpo? De que matéria elástica, de que solúvel, de que éter? Não há órgãos, às vezes me parece. Vendo daqui não há pulmões. Porque você não precisa deles (e, ao mesmo tempo, eu sei o quanto devem doer os pulmões na correria desgraçada).

Odeio quando comparam vocês ao time masculino. É de uma miopia ímpar. Méritos e deméritos são seus independentemente da outra parte. A condescendência dos que advogam mudança de tamanho do campo ou da trave me enoja. Você são grandes jogadoras nessa metragem. A tentação é grande de comparar vocês a um assentado do MST, tomando conta de um território improdutivo. Mas o fato é que essa analogia teria que reconhecer que o campo é “deles” e que vocês são as “as invasoras”. Mas não é assim. Essa parte do latifúndio gramado é de vocês, essa parte em que o suor rega a terra é de vocês. Esportes femininos em geral padecem do mesmo mal: são visto como de segunda classe, parasitários ao masculino. Isso porque, volto a dizer, as atletas desafiam o lugar do corpo da mulher. Também porque não escapam à lógica geral da desvalorização do trabalho feminino. Apenas nesse sentido eu arriscaria uma comparação com o futebol dos homens: no que a estrutura do esporte coloca o esforço das mulheres como menos merecedor de recompensa monetária.

Pois, de resto, o futebol que vocês jogam, Marta, é excitante, belo, vibrante.
Em relação ao jogo de hoje contra os EUA eu só tenho um porém – que vale, também, a despeito da minha recusa anterior em comparar, ao time masculino – faltou jogo coletivo. É clichê, eu sei. “Jogo coletivo”. Mas faltou mesmo. Nosso time (olha eu de novo me implicando em vocês, querendo estar com vocês desde sempre) muitas vezes se apoia nas jogadas individuais. Arriscando uma interpretação sociológica – ui! – eu diria que essa nossa aposta no talento de uma jogadora é uma resposta às dificuldades de mobilidade social. O individualismo genial do futebol seria uma forma de compensar a inércia social: se não podemos ser bons como um todo, há o gênio que nos redime. O irônico é que se há uma sociedade em que a ideologia do individualismo é sedimentada é a dos EUA. Mas o jogo do time estadunidense, hoje, foi coletivo. E, por isso, acredito, perdemos. Nosso time foi, em boa parte do jogo, um aglomerado de excelentes peças. Faltou, eu arrisco dizer, solidariedade. Eu imagino um time onde ninguém está só lançada na ponta, onde ninguém está só defendendo no lado do campo, onde há sempre duas, três companheiras para receber o passe.

Claro, estou aqui, eu e minhas cervejas e minhas batatas de saquinho e minha pança e minha falta de fôlego, pensando o que seria melhor para vocês. Há um técnico (jovem demais, evangélico demais) para dizer essas coisas. Mas como eu investi afeto e tempo e, principalmente, afeto, eu me sinto no direito de dizer.

Marta, deixa eu começar a terminar essa carta dizendo para você que há centenas de milhares de pessoas (como eu sei que são centenas de milhares? Eu não sei…) que admiram você porque, desculpe-me mais uma vez o vernáculo, porque você é do caralho. Você é um gênio. Não sei bem como se criou esse talento (só você sabe, mas se um dia achar que vale a pena fazer um filme sobre sua vida, eu descaradamente me coloco à sua disposição para escrever o roteiro), mas imagino que seja mais uma história gerada pela falta. As grandes narrativas no Brasil vem sempre da falta. Nesse país o vácuo é o mais eloquente dos pais. Pois bem, esse talento, essa dança linda que você chama de futebol e eu chamo de eternidade, isso é o grande presente que você dá ao mundo. Que inveja, Marta…

O som seco da bola contra as redes repete-se no meu ouvido sem parar. Não é porque perdemos hoje para os EUA que eu esqueço do som. Perdemos. Isso é a graça do esporte: quando nos entregamos na esperança de que nos resgate do acaso. Hoje, o acaso fez dos EUA semifinalista. E fez, de mim, uma reserva do time, não uma reserva que está no campo, mas uma reserva como um poço artesiano, algo do que vocês podem beber quando tiverem sede, beber da minha incondicional admiração por vocês.
Continuo starstruck. Continuo achando que mulheres jogando futebol é algo esteticamente interessante. São lindas as mulheres e o futebol que elas jogam.

Com amor,

Ramayana

p.s. Diz pra Daiane que está tudo bem. Jogar o peso da derrota em uma única jogadora é mesquinho.

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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11 respostas para Carta aberta a Marta Vieira da Silva

  1. ester disse:

    AGENTE QUER TE CONHEÇER UM DIA ATT GALERINHA DO FUTURO, NOSSO SONHO E SER JOGADORA DE FUTEBOL E O NOME DO NOSSO TIME E GALERINHA DO FUTURO NÓS GOSTAMOS MUITO DE VCS BJSSSSSSSSSSSSSSSS GALERINHA DO FUTURO QUEREMOS ALCANÇAR ESSA CONQUISTA DE SER JOGADORA DE FUTEBOL

  2. marta eu queria conheçe vc eu seu joga muito bem me liga 81573749

  3. ester disse:

    marta meu nome e ester eu so sua fa eu tenho11 ano e vc e muito legal joga de mais pra o messi nao e nada pra mim so existe vc melhor do mundo te adoro de ester

  4. marta
    imprecionante como vc,’ Mudou α minhα vidα ! De umα horα prα outrα…Derrepente você já faz
    parte da minha vida , da minha rotina , passo horas , minutos ,
    segundos pesando em você ! Nuncα gostei de umα pessoα αssim , como gosto
    de você … αconteçα oq αcontecer eu sempre vou estαr do seu lαdo , te
    αpoiαndo , te dαndo forçαs ! Mesmo não te conhecendo pessoalmente , já
    deu pra notar a pessoa que você é !
    Rainha,Genia,imcomparavel,insubstituivel

    ,fantastica,brasileira,guerreira,batalhadora,idola, inspiração,craque, a MELHOR jogadora do mundo… !

    A pessoa que vem mudando a história do futebol feminino:MARTA VIEIRA DA SILVA;

    ♥ ♥
    MartA A Melhor ….
    nunca vol dezistir do sonho de te conheser..
    rosiane vieira
    tele;082 91611103

  5. Vitória disse:

    Você conseguiu com belas palavras descrever o que sinto por essas meninas, em sua luta (que para mim também é a luta de todas as mulheres), em sua busca, em sua ousada quebra de conduta…nutro profunda admiração por elas, a derrota é apenas um doloroso degrau que se põe diante dessas meninas. Sentada, no banco de reservas, sei que dentro de cada uma delas a vontade de vencer só fez aumentar.
    Parabéns por sua fantástica carta.

  6. Pingback: A Copa do Mundo na Alemanha… e em Natal? « O Caderno de Patrick

  7. Cara Ramayana, li teu artigo partilhado no GReader, e fiquei profundamente emocionada. Concordo tanto que humildemente subscrevo.
    A Marta TEM QUE receber e ler isso, assim como toda a seleção. Grande abraço.

  8. allanpatrick disse:

    Tudo o que eu queria ter dito sobre a seleção brasileira mas não soube escrever. Parabéns pelo belíssimo texto!

  9. Pingback: Acabou a Copa do Mundo, mas você pode continuar acompanhando o Futebol FemininoBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  10. Roberta disse:

    Creio que o futebol feminino nunca foi tão bem descrito em palavras, se é que isso é possível. Faço minhas suas palavras, não só para Marta, mas para toda a seleção feminina, para todos os times, para as jogadoras e para aquelas que ainda não chegaram lá, como eu. Apesar de tudo, apesar dos pesares, que não são poucos, É LINDO. É lindo ver a alegria com que elas apresentam este futebol, que também é lindo.
    Poucas palavras para tentar, tentar descrever o futebol feminino.
    Roberta Lima

  11. Pingback: O Futebol Feminino na Marca do Pênalti | Groselha News

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