Um passo à frente, dois para trás: a valsa do futuro no Brasil

Um décimo desvio à esquerda: como fazer para que coração, mente e corpo voltem a ser um só?

Qualquer proposição em relação ao futuro é, na verdade, um julgamento sobre o presente. Recente estudo da Fundação Getúlio Vargas mostra o Brasil como líder no ranking de felicidade futura, otimismo que, evidentemente, se fundamenta em indícios de um país em transformação.

É claro que o indicador mais diretamente relacionado a esse otimismo é o econômico: crescimento da renda e diminuição de desigualdades sociais fazem emergir imagens até pouco tempo raras – aeroportos lotados por passageiros de primeira(s) viagem(ns), ruas paralisadas por excesso de automóveis (mesmo em cidades menores), eletrodomésticos que se evaporam das prateleiras antes de você poder perguntar “Quanta energia isso aqui consome?”

Se essa impressão estiver certa, se o otimismo vier mesmo, em primeiro lugar, da possibilidade de consumo, temos que parar para pensar o que estamos consumindo e como. Desenvolvimento não é apenas uma grande parte da população poder comprar um carro, mas oferecer a essa população excelente transporte público – carro, então, se torna item do fim de semana, introduzindo, efetivamente, a noção de “carro de passeio”.  Desenvolvimento não é apenas distribuir renda, mas também trazer a público a discussão sobre o endividamento individual, sobre a possibilidade de poupança a médio prazo como alternativa à compra a crédito caro.

De qualquer forma, resta a manifesta fé no futuro. Não se trata mais, penso, do anedótico “país do futuro” como formulação que postergava as condições necessárias para o crescimento do país para um tempo-além indefinido, esvaziando, assim, a responsabilidade no presente. Procrastinação ideológica. Hoje, trata-se de juízo sobre condições que tornam possível pensar sobre o amanhã. Trata-se de um presente que permite sonhar. Estaríamos, finalmente, no século XXI.

Pois bem, mas o que acontece quando mudamos o foco do otimismo e saimos do âmbito econômico e passamos para a esfera do, digamos, “espírito” da época? Que tipo de futuro está sendo desenhado no país como pensamento e afeto? Aqui, vejo menos luzes.

Desde as eleições de 2010 que o pensamento e o afeto conservadores emergiram, em parte, a partir do chamado da candidatura do PSDB para a proteção da família, da tradição, da religião e da propriedade. Desde então, manifestações claras de classismo, sexismo, racismo, homofobia. Basta varrer as redes sociais para levantar o pó desses “ismos” todos. Esse que é, no Brasil, um conservadorismo “do mal”, um conservadorismo empenhado em impedir a existência do que lhe for contrário. O pensamento e o afeto conservadores de que falo aqui são formas espúrias e um encontro com elas é debilitador. Tem como escudo argumentos que vão de um pseudo-intelectualismo manifesto em uma suposta crítica ao “politicamente correto” (conservadorismo do mal “iluminista”) à reprodução acrítica do “é assim mesmo que tem que ser”, doxa do estado “natural” das coisas.

Os humoristas conservadores anti-PC esquecem que o grande gesto do cômico é se dar em holocausto em nome do riso. É preciso encarar o abismo, saltar além da extratosfera e cair onde cair – que a galera morre de rir.  Apontar o dedo acusador, usar nada mais do que má consciência, não é exercício de humor: é pura crueldade chancelada por uma plateia espumando um ódio compartilhado com o humorista. Com seu gesto de auto-sacrifício para fazer rir, o verdadeiro cômico manifesta amor ao mundo, o exato oposto desses humoristas hidrófobos.

Os que preferem o argumento do estado “natural” das coisas geralmente apelam para instâncias divinas: assim é porque deus quer. Ter ou não uma religião, acreditar ou não em deus(es) é, claro, matéria de foro íntimo. Claro? Quando, no entanto, uma deputada estadual associa homossexualidade à pedofilia, vocalizando o rancor discriminatório em relação a sexualidades dissonantes da norma carregado por uma parte considerável da comunidade cristã brasileira, temos perigosíssimos atravessamentos.

Um passo para frente, dois para trás. Valsa melancólica que nos pomos a dançar em uma nação em transição. Uma espécie de Inglaterra Vitoriana cujo anacronismo faz cair nos ombros de quem busca laicidade, tolerância e igualdade o peso de um país em busca de si mesmo.

Um entre-lugar ainda triste onde os anúncios do século XXI convivem com a mentalidade do século XIX. Se fizermos uma média, isso nos colocaria nos anos 50, década em que o desenvolvimento ecônomico conviveu com um conservadorismo do mal, parindo uma sociedade rancorosa, hipócrita, opressora, pecados tão grandes quando a desigualdade social e a má distribuição de renda.

A questão que resta: quais as condições necessárias para que pensamentos e afetos possam alcançar o desenvolvimento econômico?

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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