The lady is a tramp, a slut, a ho

Nono desvio à esquerda. Pergunta: o que querem as vagabundas?

Vagativum, vagare, andar sem destino. Vagabundas e vadias perambulam, caminham sem objetivo. Vagabundear e vadiar: recusar o trabalho, viver à margem, ver o passo e pressa dos que correm no leito do rio. Não é à toa que há quem odeie vagabundas e vagabundos. Logo após a independência do Brasil foi criado o tipo penal de vadiagem para conter essa turba silenciosa e suja, ameaça aos laboriosos machos brancos no comando. À época se dizia que brasileiro era vagabundo, não gostava de trabalhar. O paternalismo das classes dominantes adorava esse discurso do “inatismo” da vadiagem nacional, pois ele legitimava a legislação que obrigava ao trabalho e incentivava o projeto de imigrações.  Vagabundagem e vadiagem são, desde muito tempo, questão de controle sobre o andar e de maximização da produção.

Quando pensamos em vagabundas mais do que em vagabundos, há outro cruel desdobramento semântico: vadia, vagabunda é aquela que vai com todos. É aquela que erra, no duplo sentido do termo, de macho em macho (ou de mulher em mulher, ou variações, pois não é privilégio heterossexual ser considerada vagabunda).

A vadia vai com todos. O que é, claro, uma impossibilidade física. Então somos obrigados a refrasear: a vadia vai com qualquer um. Quem vai com a vadia torna-se um qualquer. Coisa monstruosa perder a identidade assim, tornar-se um qualquer. A vadia é, pois, antes de tudo, uma importante figura política de desidentificação: ela põe em crise o que é próprio de cada um, sua propriedade.

O corpo dessa vagabunda anda por onde não devia andar, desenhando, assim, novos possíveis. Outro dia exibimos O Céu de Suley em aula e uma aluna, ao ver os sumaríssimos trajes de Hermila, personagem principal do filme, comentou: “Também, vestida assim… Ela tá pedindo”. Hermila é uma maravilhosa vadia do cinema nacional; seu andar errático, sua audácia em se rifar para continuar sua viagem, seu corpo um campo de batalha entre a autonomia de sua sexualidade e as tentativas de controle e submissão e de redenção por João, o mototáxi de bom coração, que quer lhe tirar dessa vida. Esses são dois pólos, aliás, entre os quais a vagabunda perambula, dois impulsos: a completa repulsa e a fascinação redentora. Uma vadia só presta para ser cuspida ou para ser redimida. Freud lançou a pedra: os homens quando amam não desejam, e quando desejam não amam. Amar a santa, desejar a puta, nunca o inverso: o senso comum trata de consolidar a dicotomia. Vadia boa é vadia arrependida ou vadia morta.

A vagabunda assombra pois sua perambulação confronta as pressuposições de uma “natural” disposição masculina à circulação e à distribuição dos genes (pressuposição defendida com furor – nada uterino – pelos psicólogos evolucionistas [oximoro?]). Essa mulher é um perigo, porque ela mostra que a libido feminina não são águas rasas e calmas. Pelo contrário.

Por outro lado, vestida assim, essa vadia só pode estar querendo. Só pode estar atrás de um pau que lhe vare as entranhas. Se lhe cobrimos o corpo com uma mortalha preta, se lhe cortamos o clitóris no cru, é para sua própria proteção.

Não são poucos os dispositivos retóricos e materiais para controlar o andar da vagabunda, sua vadiagem.

Por isso, a importância das Slut Walks que tem acontecido ao redor do mundo como forma de chamar atenção aos constrangimentos sofridos pelas mulheres. São marchas, antes de tudo, pelo direito mesmo de marchar, pelo reconhecimento de que os corpos devem ser livres para caminhar por onde quiserem.

Hoje, quando eu sair em caminhada com as outras vagabundas aqui em Florianópolis, não estou sendo irônica, me reapropriando do termo vagaba. Estarei usando o termo pelo que ele significa socialmente, de maneira, digamos, “literal”: uma mulher que vaga, que vai com quem quer. Ironia, por definição, é dizer uma coisa dizendo outra. Quem, hoje, marcha dizendo-se vadia, mas quer dizer outra coisa, esvazia a potência política da vagabundagem. “Eu digo que sou vadia mas na verdade estou dizendo que não sou”. Quer dizer o quê?

Eu prefiro assumir que sou vadia sim. Sem nenhuma ironia, pode me chamar de vagaba, thank you very much. Ironia, nessas horas, implica em que há algo de errado em ser vadia “de verdade”. E hoje nossa perambulação pelas ruas de Florianópolis é um indício da nossa vontade de reaver a cidade como o espaço possível da vagabundagem, da vadiagem e de outras artes e experiências.

 

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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