A inexorável solidão da mulher que come salada

Sexto desvio à esquerda. Pergunta: o que quer uma mulher que, só, come salada e sorri?


O blog The Hairpin publicou um post com imagens de mulheres sozinhas comendo saladas. Quase um clichê da propaganda. É o famoso “tempo para si”, para se cuidar.

Nas fotos elas sorriem, garfos levantados em direção à boca, naves saudáveis prontas para pousar. Acompanhando as saladas, um copo de água, um copo de suco. Não, elas estão rindo, na verdade, gargalhando, uma felicidade que me contagiaria se uma pergunta não ficasse me incomodando, como mosca preta sobrevoando a boca, que insiste em pousar, como nave sórdida:

Toda essa felicidade por comer salada?

Toda essa felicidade?

Toda?

Passei o natal em Belo Horizonte, pulando de boteco em boteco, comendo torresmo e linguiça e bebendo cerveja. Eu sorria. Não, eu ria, gargalhava.

Eu sei, a patrulha vai soar as sirenes e vai dizer que no fundo do prato de salada eu encontro meu bem-estar, eu encontro a forma do meu corpo – afinal, o que é estar “em forma”? Meu corpo tem forma, não é informe, pode até ser disforme, de acordo com a fórmula, mas todos os corpos estão “em forma”, em sua forma, em sua singularidade.

Eu como salada, no mais das vezes, por obrigação. Aqui e ali alguma mistura de vegetais, frutais ou legumes se espalha pelas minhas papilas, acordando-as, depois roçando nelas, lúbricas. Mas, em geral, saladas são inodoras e razoavelmente insípidas. Pelo menos são coloridas, porém inanes, quase frígidas.

Comer. Pensar no sentido sexual dessa palavra em relação às saladas me leva à conclusão de que não se pode “comer” saladas. No máximo, um amasso ao pé do muro. Ou pior, lembrar que salada se come sozinha, rindo. A mulher sozinha e sua salada, refeição masturbatória que possivelmente não satisfaz.

A mulher sozinha sorridente e sua salada se merecem. Uma contenta a outra, com a promessa de que transformará a carne em pó, o sangue em água, a vida em uma brisa morna que não diz nada a não ser seu próprio vazio.

Viverão eternamente sós, nesse seu tempo para si, para se cuidar e renunciar aos vícios. A salada sabe do seu destino, em breve será parte dessa mulher só que só ri, em um transe verde-alface. Mas talvez a mulher solitária não conheça o riso torto do torresmo e a languidez da linguiça, orgíacos, suicidas. Acho que a mulher só quer viver para sempre.

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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2 respostas para A inexorável solidão da mulher que come salada

  1. Princesa Elle disse:

    Rsrsrsrs, sempre me perguntei por que essas mulheres comem salada sorrindo. Eu sorrio quando como nugget com cerveja, salada pra mim é bom de vez em quando, mas me lembra mato!

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