Sobre Anjos no Natal

Quarto desvio à esquerda: para que servem os anjos?

Natal em um Shopping Center em Florianópolis

 

Para cantar a glória.

Gloria in excelsis deo, et in terra pax hominibus bonae voluntatis. Laudamus te. Benedicimus te. Adoramus te. Glorificamus te.

Nada a não ser o canto dos anjos para sustentar a glória divina. Se não for esse coro, o poder de Deus desaparece.

Deus vive em um eterno sábado; depois de ter criado o mundo, fazer o quê? Apenas vazios. Então cantam os anjos para fazer lembrar da omnipotência divina que, na verdade, não existe. O que ele tinha de fazer já fez.

Se somos feitos à Sua imagem e semelhança, então nós também já não temos o que fazer. Trabalhar, educar, sal do próprio rosto: já que não temos anjos para cantar nossa glória, precisamos de algo que nos lembre que ainda temos poder – poder de transformar a terra, de esculpir nossa marca no mundo.

Outro dia entrei em um shopping center em Florianópolis e fui atacada por um coral de anjos eletrônicos, anjos-robôs medonhos, de asas articuladas e voo coreografado. Seu canto ressoava no templo mundano de concreto aparente e vidro. Senti-me roubada da glória.

Desse coral se sobressaia um maestro, virado para a platéia, ventriloquizando uma mensagem de auto-ajuda e redenção.

Minha vontade era desativar a glória que cantavam esses anjos. Mas aí eu lembrei que deles nós nos assemelhamos muito, trabalhando para manter em obra um poder que já parou para descansar há tempos. Foi quando eu me vi, a mim, a amigos, desconhecidos, pendurados em fios de aço, asas articuladas, voo coreografado em medonho coro celestial celebrando nossa associação a esse poder terreno, transformado em celeste, expresso no capital, o qual saudamos, bendizemos, adoramos e glorificamos.

Acredito apenas em um Deus sem poder.

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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