(Quase) Todas as Cores de Dilma

Um quinto desvio à esquerda. Pergunta: de que cor faltou falar a presidenta Dilma Rousseff em sua posse?

Quando a candidata eleita Dilma Rousseff entrou no plenário do Congresso Nacional começamos um novo ciclo histórico. A primeira mulher a ser empossada como presidente da República Federativa do Brasil carrega com ela oito anos de uma administração que mudou a forma como se vê a função e o desempenho do Estado e a promessa de colorir as formas desenhadas pelo ex-presidente Lula.

Color-by-numbers. Livros de colorir onde a cada cor corresponder um número. É só pintar. O livro de colorir do Lula que Dilma recebe, no entanto, ainda que definido em contornos, é desenhado na maleabilidade do grafite. Isso quer dizer que é possível ainda transformar decisões e riscar por cima de vazios reveladores de omissões.

A paleta de cores será definida em jogos políticos. O PMDB, uma espécie de branco, que contamina as outras cores, tirando-lhes o viço e, até, transformando-as em branco mesmo, um branco que se quer neutro para não causar melindres. PSDB e DEM não serão o preto antinômico. Arrisco dizer que estão mais para um cinza fosco, que, sem anular o desenho, lhe tirarão parte do viço estético. O PV, provavelmente, se mostrará um verde-bandeira, aquela cor de lápis que nunca sai da caixa a não ser para isso: pintar a bandeira, monocromático e monotemático.

O PT, como sugere seu vermelho, indica um alerta. É preciso cuidar para que paspalhos sabichões não tomem o desenho para sim, transformando o governo em um reino de algas pirrófitas que sufocam a vida no mar (de possibilidades).

Ao passar em revistas as tropas das forças armadas, a instituição que durante a ditadura a perseguiu, Dilma protagonizou uma das mais pungentes manifestações de consolidação da democracia no Brasil. Chegamos, finalmente, ao momento em que feridas começam a efetivamente sarar, a ponto, inclusive, de poder suscitar a discussão sobre o papel (ou mesmo necessidade) das forças armadas. Qual a sua verdadeira vocação em um país que se declara pacífico e que se constrói democrático? Patrulha de fronteira, reforço à segurança urbana? Está na hora de começarmos a pensar em profissionalizar as forças armadas, acabando com o serviço militar obrigatório.

Ao receber a faixa do ex-presidente Lula, operário sem curso superior, Dilma também participa dessa reconfiguração do imaginário nacional em relação à mobilidade social. Se eles podem, qualquer um pode, né? Ou, antes, um qualquer pode, um ainda sem nome, ainda não nascido, um que é só potência. Lula e Dilma restauraram a potência da imaginação que se expressa no livro de desenhos.

Em seu discurso no Congresso Dilma falou de (quase) tudo. Consolidação da democracia, compromisso com o desenvolvimento e erradicação da pobreza, moralidade administrativa, educação, saúde, segurança, cultura (os dois últimos temas – em especial cultura – pouco discutidos, ou discutidos de maneira atravessada durante a campanha). Dilma disse acreditar na engenhosidade do povo brasileiro, em nossa criatividade – lembro sempre do Paulo Emílio Sales Gomes e nossa “incapacidade criativa em copiar” em cinema; não seria esse, exatamente, o impulso de criação que nos caracteriza, em nossa falta? Não a mera “cópia”, mas a transformação criativa, a bastardização.

Salman Rushdie: “Como a novidade penetra no mundo? Como é que nasce? De que fusões, transformações, conjunções é feita? Como sobrevive, extrema e perigosa como é? Que concessões, que acordos, que traições de sua natureza secreta tem ela de fazer para repelir a fúria das multidões, o anjo exterminador, a guilhotina? Nascer é sempre uma queda?” (Versos Satânicos)

Dilma fala várias vezes em criatividade, na indústria, na tecnologia, na cultura. É hora, pois, de fazer o novo entrar no mundo, presidenta. O novo em forma de pautas para a discussão pública, o novo em forma exatamente de um espaço público onde se possa discutir a novidade, para que ela não morra na praia, sereia deusa-maia-rabo-de-baleia. Esse espaço público é o museu ao ar livre onde se expõe o livro de colorir para que possamos, juntas, decidir matizes e traços e rastros do que passou mas que precisa ser recuperado.

Nascer é sempre uma queda. No vazio.

Dilma não vestiu vermelho. Usava algo meio creme, discreta. Andar resoluto, queixo apontado para o alto. Parecia à vontade. Beijava e abraçava aliados com afeto e abraçava e beijava inimigos políticos sem afetação. Procurou manifestar carisma, em acenos e em pequenos desvios de protocolo. Nós amamos essas pequenas transgressões, esses dribles abusados. Ao contrário do que dizem na websfera, não chegou a ser ofuscada pela barely legal Marcela Temer (a não ser na imaginação sexista de três ou quatro indivíduos). Paula, a primeira-filha, acompanhando-a no Rolls Royce presidencial, consolidou a matriz (perdão pelo trocadilho) da imagem de Dilma: mãe-coragem e mãe-carinho. A mão que afaga, que trabalha, que pune. Assim aparecem seus contornos no livro de cores.

O grande perigo, nesse momento: daltonismo político. Deficiência que faz perder a sensibilidade para as cores e aparece como um consenso quase cego. A vitória de Dilma precisa significar, também, a vitória do dissenso democrático. Dentro e fora do governo.

Dilma, nessas suas primeiras horas, pois, mostra suas cores. Uma omissão, contudo. E contundente.

Em seu discurso ela disse:

“O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ele hoje. Do tamanho da participação de todos e de cada um:

Dos movimentos sociais,

dos que labutam no campo,

dos profissionais liberais,

dos trabalhadores e dos pequenos empreendedores,

dos intelectuais,

dos servidores públicos,

dos empresários,

das mulheres,

dos negros, dos índios e dos jovens,

de todos aqueles que lutam para superar distintas formas de discriminação.”

O discurso omite gays e lésbicas e portadores de deficiência, dois dos mais fortes grupos de combate à discriminação. Como explicar essa omissão? Será que essas diferenças ainda não foram completamente entendidas? Há ainda medo em se comprometer?

Deve ser no governo Dilma que precisamos estabelecer a conquista de direitos para os sujeitos GLBTTT. Assim como o aborto, essa deve ser a pauta mais polêmica a ser enfrentada. De todas as cores, Dilma esqueceu de mencionar o arco-íris.

É possível medir a maturidade de uma sociedade pela sua capacidade de administrar as diferenças. O Brasil, pelo que parece, caminha a passos ainda lentos.

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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