Sobre a Memória de Minha Avó

Um segundo desvio à esquerda. Pergunta: é preciso lembrar?

(texto escrito sobre a memória de minha avó, por cima dela, como mais uma camada de tinta sobre um quadro repintado tantas vezes; sobre a memória dela: como ela foi corroída pelo Alzheimer e como eu ainda a lembro (dela e da memória dela)

A morte de minha avó foi decorrente do mal de Alzheimer. Às vezes me dá medo pensar que carrego no sangue o desenho que levará, ao final, à degeneração de minha memória. Perco coisas, confundo-lhes o paradeiro.”The art of losing isn’t hard to master”: não é difícil aprender a arte de perder, nos lembra Elizabeth Bishop. Aos poucos vamos perdendo os objetos dos dia a dia, nomes e pessoas, países, continentes, uma casa, afetos.

Com a idade tende a piorar, eu acho. Durante as aulas procuro por palavras simples durante torturantes segundos, movendo os olhos pelos rostos entediados de meus alunos. Já me aconselharam a inventariar os passos que organizam a vida: fazer um checklist – já coloquei a câmera na bolsa, estou com as chaves no bolso, agora preciso ligar o alarme e fechar a porta. Ainda não, pois esqueci de calçar os sapatos. Torço para que uma certa plasticidade neuronal adquirida em anos de treinamento acadêmico e intelectual prolonguem minha lucidez.

Nos último anos quando visitava minha avó eu me via desaparecendo dentro dela, via através de seus olhos esbranquiçados pela catarata meu próprio passado feito fumaça que subia em seus brancos. Pergunto-me se essa vista alva não seria ela mesma a imagem mais acertada do esquecimento, de si, dos outros, do ato mesmo de esquecer.

Minha avó segurava minha mão carinhosamente. Por alguns instantes eu reconhecia o seu calor, mas, em seguida, os olhos turvos voltavam a passear por espaços insondáveis para quem está amarrado à profundidade da memória. Arrisco dizer que, nos seus últimos meses minha avó viveu em um mundo plano, uma planície-consciência, com eventuais desvios causados pela dor da decomposição de seu corpo. Montanhas e abismos são a topografia de quem lembra.

Auto-anamnese:

  • Não procuro lembrar frequentemente de pessoas e lugares. Não tenho tantos impulsos regressivos. O pensamento vaga pelo presente, pelo possível mas ainda não atualizado, pelo impossível; dificilmente pelo passado.
  • Há imagens que não sei especificar se são memórias, sonhos ou trechos de filmes que assisti. Minha memória funciona a base dessa ontologia imprecisa, vacilante. Lembranças, desejos, projeções.
  • Lembro do que li, mas só em relação. Nunca algo em si, mas ancorado em algo outro. Corrente que me firma.
  • Lembro bem de cheiros e gostos. Agora mesmo me veio à mente e ao palato a adstringência do tacacá tomado às tarde na infância no Acre.
  • Não tenho a mínima capacidade de lembrar nomes. Será que as pessoas não me importam? Pois é delas que esqueço primeiro.

Há quem me olhe com desconfiança, quase sempre colada ao notebook – é minha memória protética, meu HD externo. E não deixa de ser um dos motivos pelos quais perco o passado, pois essa máquina me enche de presente(s). Conecto-me nela e vivemos em uma simultaneidade xifópaga.

Outro dia eu sonhei (ou estaria imaginando que sonhei?) que passeava por um imenso quintal onde se estendiam lençóis brancos, pelos quais eu passava com cuidado, para não sujá-los com minhas mãos imundas de terra. Se a memória são esses lençóis, é possível, então, que meu corpo se recuse a tocá-los; minhas lembranças são como projeções nessas telas esvoaçantes. (Talvez tenha tirado essa imagem de As Ondas, da Virginia Woolf, mas não me recordo. Reler um texto é sempre reescrevê-lo; é preciso, pois, lembrar dele, sem reler, para traçar o modo como nos afetou – o que torna a análise fílmica um exercício doloroso de re-evocação e reescrita)

A perda da memória me obriga a inventar, quer dizer, me obriga a usar o que me lembro para recriar coisas no mundo. Quando um objeto vira “aquele negócio”, “a coisa”, “o troço”, meu corpo se contorce em alegres pantomimas. O gesto sintetiza o passado e o presente.

Talvez seja necessário esquecer um pouco a cada dia, para refazer as relações entre passado e presente. Esquecer não ao ponto de não mais ter uma topografia, mas o suficiente para apagar o caminho entre dois morros e criar a necessidade de traçar uma nova rota, desenhar outros mapas.

Daí, quem sabe, não já é perda. É possível que, a não ser nos casos gravíssimos em que o corpo não mais funciona (ou quem sabe até assim – a percepção de quem sofre de Alzheimer, como é? Será essa falência mais produtiva do que a subjetividade esquizofrênica para pensar o mundo?), nunca haja “perda” das coisas, pessoas, nomes, mas a cada vacilo da memória uma nova pista (entendida tanto como traço, evidência, quanto como caminho). Então, não é desastre, como diz Elibeth Bishop no seu poema “One Art”. Pode soar como desastre, mas não é.

Talvez a vida política seja baseada em lembranças demais.

Tenho medo que aos 35, quase 36 anos seja tarde demais para me preocupar com a memória.

Esqueci (juro!) porque eu queria escrever esse texto. Mas está dado, oferta-obrigação.

Sobre Ramayana Lira

Paraibana no desterro, raízes de cabeça para baixo, soltas no ar. Professora universitária, pesquisadora e curiosa em geral. Um pé na alta cultura, um pé na baixa cultura e um pé em toda cultura (sim, eu sei que isso conta 3 pés...). Agnóstica, ateia, macumbeira e esotérica, dependendo do horóscopo. Gente fina, gente boa, megera e filha da puta, dependendo de quem fala. Ouve música como quem vê filmes, ou seja, porque de outra maneira a vida não vale a pena.
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