Eu quero ser um homem impotente, mas não quero casar

Um décimo terceiro desvio à esquerda: quem pode?

Impotência é a potência de não fazer e não apenas a ausência de potência. Há, assim, uma pequena revolução na defesa, por exemplo, da impotência masculina. No sentido que quero dar à palavra, o homem impotente não é aquele que não pode tem ereção, é aquele que pode não ter ereção, é aquele que está salvo da obrigação de potência, de se mostrar sempre ereto.

Não é à toa que proliferam remédios para tratar a impotência que é, dessa maneira, muito mais uma “disfunção” política do que biológica. É preciso “remediar” a potência de não fazer, pois é a noção de que “você pode”, “nós podemos” (yes, we can) que aparece, de maneira reveladora, como a “verdadeira potência”.

Divulga-se que tudo se pode fazer, obscurecendo a importância do que se pode não fazer, como maneira de corresponder às necessidade do próprio capitalismo contemporâneo, que exige de nós, cada vez mais, a capacidade de ser qualquer coisa, de poder fazer qualquer coisa (nos limites mais ou menos fluidos dessas necessidades).

Poder não querer, não fazer, não ter é diferente, obviamente, de não poder querer, fazer, ter. Poder não ser é uma forma de resistência. O homem impotente (sexualmente) seria o homem que pode não querer estar sempre ereto, o que guarda a potência de não ser potente. É o oposto do homem impotente por não poder ser ereto (por qualquer motivo: fisiológico, psicológico), que não tem escolha – o não é, efetivamente, uma necessidade, o não nega-lhe a liberdade.

A impotência de não ser, no entanto, é a que gera a liberdade.

(É um raciocínio parecido quando gays e lésbicas dizem que querem poder não casar. A verdadeira bandeira é pelo direito de não casar. Pois hoje, o que há, é o não poder casar, negação da potência, da liberdade.)

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Poema pelas portas dos fundos

Sim, dar, samaritanamente, aos pobres, ao ricos, aos vesgos, aos mancos, aos lindos, aos trancos e barrancos. Dar o brioco, o roscofe, o fiofó, dar o cu, monossilabicamente. Dadá Maravilha! Aí não, meu filho, mais embaixo. Agora sim, deu de jeito. Dá água na boca, porque precisa de cuspe. E melhor, não tem como dar desculpa: nem naquela semana do mês há obstáculo. Está lá, fazendo bico, pronto para ser beijado. Ah, Sandy, se você soubesse, há muito já o tinha cantado: cu, por onde entram as ideias do diabo.

 

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Monogamia, democracia e a tradicional família

Um décimo segundo desvio à esquerda. Pergunta: quer casar comigos?

Em recente entrevista ao site Salon, o professor Joseph Heinrich da University of British Columbia defende haver uma estreita relação entre monogamia e democracia. Em suma, os argumentos são os seguintes:

  • há uma mal social associado ao fato de homens se casarem com várias mulheres;
  • a monogamia redirecionaria a motivação masculina de maneira que diminuiria índices de criminalidade, aumentaria a renda per capita e ofereceria melhores oportunidades para as crianças;
  • a monogamia precede, e acompanha, o surgimento de ideais democráticos (foi na Atenas clássica que algumas das primeiras leis a favor da monogamia foram instituídas);
  • a monogamia seria uma forma de estabelecer a igualdade entre os cidadãos, já que, assim, haveria mulheres disponíveis para todos os machos atenienses e não uma concentração de mulheres a par com a concentração de renda;
  • e eu cito, literalmente, o distinto professor em sua entrevista: “By saying that both the king and the peasant can only have one wife each, it’s the first step toward saying that all men were created equal.” (Dizer que tanto o rei quanto o camponês só podem ter uma mulher é o primeiro passo para dizer que todos os homens são criados iguais);
  • casar – monogamicamente – diminui as taxas de testosterona, o que é bom, de acordo com Heinrich, pois níveis altos de testosterona levam os homens a procurar mais parceiras e a correr mais riscos;
  • quando um homem se casa com várias mulheres, acaba-se criando uma subclasse de homens que não têm parceiras, e tais homens tendem a criar problemas: comentem crimes e se metem a abusar das drogas.

Esse é um resumo que, se simplifica, não deixa de fazer jus à argumentação do professor. O que me interessou imediatamente na entrevista foi a associação entre as esferas públicas e privadas: a forma como se organiza a vida “em casa” está intimamente relacionada à organização da vida pública. Essa relação é urgente e precisa ser pensada. Mas não nos termos simplistas, mecaniscistas e deterministas propostos por Heinrich.

Em 1999, Natalie Angier, em um artigo intitulado Men, Women, Sex and Darwin, já desmantelava, com marteladas precisa e elegantes, o pensamento viciado da psicologia evolucionista, aquela que quer explicar os modos da natureza humana ao ponto de chegar à “essência” do que é ser homem e do que é ser mulher. É um modo de identificar o gênero, ao essencializa-lo.

Angier aponta as principais premissas da psicologia evolucionista em relação ao gênero e à formação de “casais”: 1. homens são mais promíscuos e menos reservados sexualmente do que as mulheres; 2. as mulheres são inerentemente mais interessadas por relacionamentos estáveis do que os homens; 3. as mulheres são naturalmente atraídas por homens de alto status e que demonstrem ter muitos recursos materiais; 4. os homens são naturalmente atraídos pela beleza e pela juventude; 5. as preferências humanas foram estabelecidas milhares de anos atrás e, desde então, não mudaram muito.  Notar como a palavra “naturalmente” (“naturally”) aparece constantemente nesse sumário: não é à toa – afinal, sempre fomos naturalmente assim e assim permaneceremos. Nesse ponto, a psicologia evolucionista não se distingue dos discursos religiosos: aqui, deus quis assim; lá, foi a natureza que quis. determinados que estamos, por ordem divina ou natural, a perpetuar uma visão masculinista do mundo.

Logo, pois, é “natural” que a monogamia seja mais democrática, pois ela estabelece uma espécie de redistribuição de renda, uma reforma agrária espúria onde a lógica é que, com uma mulher para cada homem, todos os homens são igualmente contemplados com sua forma de controle social bem particular, pois não faltando parceiras, não sobrarão homens que ameacem, com seu excesso de testosterona espumando pela boca, a paz e a ordem públicas. Já que o homem seria poligâmico “por natureza”, o casamento surge como forma de equilibrar a produtividade, pois ao concentrar seus esforços em uma única esposa, sobrariam energias para o que realmente interessa: produzir, produzir, produzir.

É nesse sentido que, na entrevista dada por Heinrich, a relação com a democracia, como igualdade radical, não aparece. Quando fala dos perigos da poligamia, o psicólogo apenas avalia a possibilidade de um homem casando com várias mulheres e nunca o inverso. Ele reproduz a ideia de que o homem, com seu apetite voraz, é quem “naturalmente” procuraria várias mulheres para se casar. Nao me interessa especular os ganhos ou perdas que estariam envolvidos na poligamia feminina em comparação com a masculina. Porque acredito que o problema é anterior.

Democracia radical é a possibilidade de uma mulher casar com vários homens e várias mulheres que, por sua vez, poderiam casar com vários outros homens e outras mulheres. Democracia radical é admitir que se redesenhe o mundo a partir de uma configuração infinita de relacionamentos.

Para tornar política – e pública – a questão do casamento, é preciso ir muito além do desentendimento a respeito da superioridade do casamento monogâmico em relação ao poligâmico, ou da poligamia feminina em relação à masculina. O que está em jogo, o verdadeiro desentendimento, é sobre a noção mesma de casamento. O problema diz respeito ao que se quer dizer quando se fala “marido” e “esposa” em termos das obrigações sociais que estão atreladas a essas palavras. É preciso desidentificar os gêneros, ou seja admitir a luta por novas configurações de afeto, novas possíveis famílias.

O primeiro passo radicalmente democrático é aquele que estabelece uma igualdade fundamental na definição dos afetos, de tal maneira que não interessam os cálculos de produtividade social. Uma igualdade tão profunda que a noção mesma de homem/mulher, macho/fêmea, esposa/marido perde seu sentido. A monogamia estaria a serviço de uma democracia fraca, caduca, doente, que existe como forma de controle, como amortecimento dos afetos e defesa do capital. A serviço de um princípio espúrio – controlar o macho em seu instinto de ter todas as fêmeas que desejar, defender os interesses dos machos mais fracos.

A democracia radical parte do príncipio de que somos corpos igualmente desejantes e que cada redefinição dos desenhos da vida “privada” é, também, uma forma de traçar outros possíveis na esfera pública.

Já pensou se um dia extinguíssemos a instituição da herança?


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Carta aberta a Marta Vieira da Silva

Um décimo primeiro desvio à esquerda. Pergunta: mulher jogando futebol? Onde já se viu isso?

Cara Marta

Talvez morando aí nos EUA você tenha se deparado com o termo starstruck. Isso mesmo: deslumbrada com a estrela. Como eu me reconheço. Por isso te escrevo, a estrela do time, quando, na verdade, gostaria de me dirigir a toda a seleção brasileira feminina de futebol. Escrevo para você, em especial, para falar com todas, como quem canta o sol reconhecendo o universo.

A derrota contra os EUA me doeu como poucas. Amo futebol. Ao contrário do que se joga com a mão, o domínio da bola com o pé dá a luz ao imponderável. Minha teoria: os EUA tem times maravilhosos com as mãos: basquete, vôlei, tênis (duplas), beisebol… Porque esportes lá são calculados com a frieza dos dedos sobre o ábaco.

O futebol é tão brasileiro quanto o risco de um chute ao alto. No risco, então, perdemos. É engraçado quando se usa a primeira pessoa do plural para falar de times nacionais. Perdemos. Porque eu me implico em vocês, porque o investimento afetivo é alto. No conforto, abrigo da minha lata de cerveja, das minhas fritas em pacote, da projeção da minha falta de coordenação na graça das corridas, a minha falta de jeito compensada na precisão do passe, na certeza do chute, nesse conforto, nesse abrigo, eu queria ser vocês. Starstruck.

Os pés, Marta, os pés…qualquer coisa, a potência, tudo nos pés. Mais de 4000 metros quadrados em que os pés dançam, tropeçam, furam, vazam. Erram. Errar no futebol é ambíguo: é o contrário de acerto (é horrível errar – a bola escapa do domínio; o chute é enviesado; a falta, desnecessária); mas é, também, errar como sinônimo de vaguear, de percorrer o campo sem destino, de andar para longe da marcação que sufoca o talento. Errar, nesse segundo sentido, é escapar dos desígnios táticos, improviso que faz de Daiane atacante e de Cristiane a melhor defensora para desviar a bola cruzada na área da Andreia.

Meu afeto por essa seleção é incontornável. Eu me entrego a vocês com a mesma paixão que me entrego a um filme de Godard, a um romance de Guimarães Rosa. Vocês são banquete estético.

Em primeiro lugar porque são (a despeito de comentários encharcados de ressentimento machista) lindas. Marta, teu sorriso de lado, tirando sarro de um mundo, é impagável. A Erika é bela com seus longos cabelos loiros que balançam no ataque e na defesa, rosto de caçadora. É charmosa a figura delgada da Aline, decidida, heroína romântica. Maurine é linda como a irmã mais nova, moleca. Fabiana é bela brejeira. Enfim, vocês são lindas e, por favor, não acreditem se houver disposição ao contrário.

Mas o banquete estético que realmente importa é o que acontece em campo. No credo sexista, arcaico, medieval que ainda reina em certos segmentos da sociedade brasileira mulheres que se entregam a desafios impertinentes como o futebol devem se provar não como jogadoras, mas como “mulheres”, ideal objetificado de feminilidade. Desculpe o apelo ao vernáculo, Marta querida (se bem que eu li em seus lábios expletivos deliciosamente incomportados durante os jogos), mas só posso dizer “fodam-se”. Fodam-se esses que vêem no futebol feminino apenas expressão de uma sexualidade “desviante”. No Brasil, infelizmente, o corpo da mulher ainda é visto como campo exclusivo de uma energia passiva, frágil. Se há algo que podemos aprender com você e com a seleção brasileira, Marta, é que o corpo da mulher é, simplesmente, da mulher. Vocês no ensinam a dor e a delícia de ser soberana sobre o corpo, de colocá-lo muito além das experiências a que o senso comum quer restringi-lo. Vocês são, Marta, politicamente indispensáveis para reposicionarmos o corpo da mulher: inclusive nesses espaços em que a tradição machista acredita que ele – o corpo – não pertence.

O jogo é lindo como vocês. Futebol, como eu disse, é imponderável. Os pés são parte pouco nobre: cabeça, mãos, braços, genitália, são o filé. Culturalmente, pouco se fala nos pés. Quando mencionados, dizem respeito à humilhação: jogar-se aos pés. Isso porque são os pés que nos ligam à terra. Nada assusta mais do que lembrar dessa nossa inevitável conexão com a terra. Futebol é o mais imanente dos esportes, aquele que nos lembra de maneira mais imediata nossa relação com o mundo, com o aqui e o agora. Se há glória, no futebol, é porque ela vem dos pés. É um esporte humilde, se pensarmos bem.

Você, Marta, faz brilhar essa humildade imanente do futebol. Porque o teu corpo, do que consigo ver na televisão limitadora (e olha que ignoro completamente os comentários dos locutores/comentaristas – me cansam os jargões), parece perder as juntas. Teu corpo parece ora se expandir, ora se dissolver. Marta, me responde, de que é feito teu corpo? De que matéria elástica, de que solúvel, de que éter? Não há órgãos, às vezes me parece. Vendo daqui não há pulmões. Porque você não precisa deles (e, ao mesmo tempo, eu sei o quanto devem doer os pulmões na correria desgraçada).

Odeio quando comparam vocês ao time masculino. É de uma miopia ímpar. Méritos e deméritos são seus independentemente da outra parte. A condescendência dos que advogam mudança de tamanho do campo ou da trave me enoja. Você são grandes jogadoras nessa metragem. A tentação é grande de comparar vocês a um assentado do MST, tomando conta de um território improdutivo. Mas o fato é que essa analogia teria que reconhecer que o campo é “deles” e que vocês são as “as invasoras”. Mas não é assim. Essa parte do latifúndio gramado é de vocês, essa parte em que o suor rega a terra é de vocês. Esportes femininos em geral padecem do mesmo mal: são visto como de segunda classe, parasitários ao masculino. Isso porque, volto a dizer, as atletas desafiam o lugar do corpo da mulher. Também porque não escapam à lógica geral da desvalorização do trabalho feminino. Apenas nesse sentido eu arriscaria uma comparação com o futebol dos homens: no que a estrutura do esporte coloca o esforço das mulheres como menos merecedor de recompensa monetária.

Pois, de resto, o futebol que vocês jogam, Marta, é excitante, belo, vibrante.
Em relação ao jogo de hoje contra os EUA eu só tenho um porém – que vale, também, a despeito da minha recusa anterior em comparar, ao time masculino – faltou jogo coletivo. É clichê, eu sei. “Jogo coletivo”. Mas faltou mesmo. Nosso time (olha eu de novo me implicando em vocês, querendo estar com vocês desde sempre) muitas vezes se apoia nas jogadas individuais. Arriscando uma interpretação sociológica – ui! – eu diria que essa nossa aposta no talento de uma jogadora é uma resposta às dificuldades de mobilidade social. O individualismo genial do futebol seria uma forma de compensar a inércia social: se não podemos ser bons como um todo, há o gênio que nos redime. O irônico é que se há uma sociedade em que a ideologia do individualismo é sedimentada é a dos EUA. Mas o jogo do time estadunidense, hoje, foi coletivo. E, por isso, acredito, perdemos. Nosso time foi, em boa parte do jogo, um aglomerado de excelentes peças. Faltou, eu arrisco dizer, solidariedade. Eu imagino um time onde ninguém está só lançada na ponta, onde ninguém está só defendendo no lado do campo, onde há sempre duas, três companheiras para receber o passe.

Claro, estou aqui, eu e minhas cervejas e minhas batatas de saquinho e minha pança e minha falta de fôlego, pensando o que seria melhor para vocês. Há um técnico (jovem demais, evangélico demais) para dizer essas coisas. Mas como eu investi afeto e tempo e, principalmente, afeto, eu me sinto no direito de dizer.

Marta, deixa eu começar a terminar essa carta dizendo para você que há centenas de milhares de pessoas (como eu sei que são centenas de milhares? Eu não sei…) que admiram você porque, desculpe-me mais uma vez o vernáculo, porque você é do caralho. Você é um gênio. Não sei bem como se criou esse talento (só você sabe, mas se um dia achar que vale a pena fazer um filme sobre sua vida, eu descaradamente me coloco à sua disposição para escrever o roteiro), mas imagino que seja mais uma história gerada pela falta. As grandes narrativas no Brasil vem sempre da falta. Nesse país o vácuo é o mais eloquente dos pais. Pois bem, esse talento, essa dança linda que você chama de futebol e eu chamo de eternidade, isso é o grande presente que você dá ao mundo. Que inveja, Marta…

O som seco da bola contra as redes repete-se no meu ouvido sem parar. Não é porque perdemos hoje para os EUA que eu esqueço do som. Perdemos. Isso é a graça do esporte: quando nos entregamos na esperança de que nos resgate do acaso. Hoje, o acaso fez dos EUA semifinalista. E fez, de mim, uma reserva do time, não uma reserva que está no campo, mas uma reserva como um poço artesiano, algo do que vocês podem beber quando tiverem sede, beber da minha incondicional admiração por vocês.
Continuo starstruck. Continuo achando que mulheres jogando futebol é algo esteticamente interessante. São lindas as mulheres e o futebol que elas jogam.

Com amor,

Ramayana

p.s. Diz pra Daiane que está tudo bem. Jogar o peso da derrota em uma única jogadora é mesquinho.

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Um passo à frente, dois para trás: a valsa do futuro no Brasil

Um décimo desvio à esquerda: como fazer para que coração, mente e corpo voltem a ser um só?

Qualquer proposição em relação ao futuro é, na verdade, um julgamento sobre o presente. Recente estudo da Fundação Getúlio Vargas mostra o Brasil como líder no ranking de felicidade futura, otimismo que, evidentemente, se fundamenta em indícios de um país em transformação.

É claro que o indicador mais diretamente relacionado a esse otimismo é o econômico: crescimento da renda e diminuição de desigualdades sociais fazem emergir imagens até pouco tempo raras – aeroportos lotados por passageiros de primeira(s) viagem(ns), ruas paralisadas por excesso de automóveis (mesmo em cidades menores), eletrodomésticos que se evaporam das prateleiras antes de você poder perguntar “Quanta energia isso aqui consome?”

Se essa impressão estiver certa, se o otimismo vier mesmo, em primeiro lugar, da possibilidade de consumo, temos que parar para pensar o que estamos consumindo e como. Desenvolvimento não é apenas uma grande parte da população poder comprar um carro, mas oferecer a essa população excelente transporte público – carro, então, se torna item do fim de semana, introduzindo, efetivamente, a noção de “carro de passeio”.  Desenvolvimento não é apenas distribuir renda, mas também trazer a público a discussão sobre o endividamento individual, sobre a possibilidade de poupança a médio prazo como alternativa à compra a crédito caro.

De qualquer forma, resta a manifesta fé no futuro. Não se trata mais, penso, do anedótico “país do futuro” como formulação que postergava as condições necessárias para o crescimento do país para um tempo-além indefinido, esvaziando, assim, a responsabilidade no presente. Procrastinação ideológica. Hoje, trata-se de juízo sobre condições que tornam possível pensar sobre o amanhã. Trata-se de um presente que permite sonhar. Estaríamos, finalmente, no século XXI.

Pois bem, mas o que acontece quando mudamos o foco do otimismo e saimos do âmbito econômico e passamos para a esfera do, digamos, “espírito” da época? Que tipo de futuro está sendo desenhado no país como pensamento e afeto? Aqui, vejo menos luzes.

Desde as eleições de 2010 que o pensamento e o afeto conservadores emergiram, em parte, a partir do chamado da candidatura do PSDB para a proteção da família, da tradição, da religião e da propriedade. Desde então, manifestações claras de classismo, sexismo, racismo, homofobia. Basta varrer as redes sociais para levantar o pó desses “ismos” todos. Esse que é, no Brasil, um conservadorismo “do mal”, um conservadorismo empenhado em impedir a existência do que lhe for contrário. O pensamento e o afeto conservadores de que falo aqui são formas espúrias e um encontro com elas é debilitador. Tem como escudo argumentos que vão de um pseudo-intelectualismo manifesto em uma suposta crítica ao “politicamente correto” (conservadorismo do mal “iluminista”) à reprodução acrítica do “é assim mesmo que tem que ser”, doxa do estado “natural” das coisas.

Os humoristas conservadores anti-PC esquecem que o grande gesto do cômico é se dar em holocausto em nome do riso. É preciso encarar o abismo, saltar além da extratosfera e cair onde cair – que a galera morre de rir.  Apontar o dedo acusador, usar nada mais do que má consciência, não é exercício de humor: é pura crueldade chancelada por uma plateia espumando um ódio compartilhado com o humorista. Com seu gesto de auto-sacrifício para fazer rir, o verdadeiro cômico manifesta amor ao mundo, o exato oposto desses humoristas hidrófobos.

Os que preferem o argumento do estado “natural” das coisas geralmente apelam para instâncias divinas: assim é porque deus quer. Ter ou não uma religião, acreditar ou não em deus(es) é, claro, matéria de foro íntimo. Claro? Quando, no entanto, uma deputada estadual associa homossexualidade à pedofilia, vocalizando o rancor discriminatório em relação a sexualidades dissonantes da norma carregado por uma parte considerável da comunidade cristã brasileira, temos perigosíssimos atravessamentos.

Um passo para frente, dois para trás. Valsa melancólica que nos pomos a dançar em uma nação em transição. Uma espécie de Inglaterra Vitoriana cujo anacronismo faz cair nos ombros de quem busca laicidade, tolerância e igualdade o peso de um país em busca de si mesmo.

Um entre-lugar ainda triste onde os anúncios do século XXI convivem com a mentalidade do século XIX. Se fizermos uma média, isso nos colocaria nos anos 50, década em que o desenvolvimento ecônomico conviveu com um conservadorismo do mal, parindo uma sociedade rancorosa, hipócrita, opressora, pecados tão grandes quando a desigualdade social e a má distribuição de renda.

A questão que resta: quais as condições necessárias para que pensamentos e afetos possam alcançar o desenvolvimento econômico?

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The lady is a tramp, a slut, a ho

Nono desvio à esquerda. Pergunta: o que querem as vagabundas?

Vagativum, vagare, andar sem destino. Vagabundas e vadias perambulam, caminham sem objetivo. Vagabundear e vadiar: recusar o trabalho, viver à margem, ver o passo e pressa dos que correm no leito do rio. Não é à toa que há quem odeie vagabundas e vagabundos. Logo após a independência do Brasil foi criado o tipo penal de vadiagem para conter essa turba silenciosa e suja, ameaça aos laboriosos machos brancos no comando. À época se dizia que brasileiro era vagabundo, não gostava de trabalhar. O paternalismo das classes dominantes adorava esse discurso do “inatismo” da vadiagem nacional, pois ele legitimava a legislação que obrigava ao trabalho e incentivava o projeto de imigrações.  Vagabundagem e vadiagem são, desde muito tempo, questão de controle sobre o andar e de maximização da produção.

Quando pensamos em vagabundas mais do que em vagabundos, há outro cruel desdobramento semântico: vadia, vagabunda é aquela que vai com todos. É aquela que erra, no duplo sentido do termo, de macho em macho (ou de mulher em mulher, ou variações, pois não é privilégio heterossexual ser considerada vagabunda).

A vadia vai com todos. O que é, claro, uma impossibilidade física. Então somos obrigados a refrasear: a vadia vai com qualquer um. Quem vai com a vadia torna-se um qualquer. Coisa monstruosa perder a identidade assim, tornar-se um qualquer. A vadia é, pois, antes de tudo, uma importante figura política de desidentificação: ela põe em crise o que é próprio de cada um, sua propriedade.

O corpo dessa vagabunda anda por onde não devia andar, desenhando, assim, novos possíveis. Outro dia exibimos O Céu de Suley em aula e uma aluna, ao ver os sumaríssimos trajes de Hermila, personagem principal do filme, comentou: “Também, vestida assim… Ela tá pedindo”. Hermila é uma maravilhosa vadia do cinema nacional; seu andar errático, sua audácia em se rifar para continuar sua viagem, seu corpo um campo de batalha entre a autonomia de sua sexualidade e as tentativas de controle e submissão e de redenção por João, o mototáxi de bom coração, que quer lhe tirar dessa vida. Esses são dois pólos, aliás, entre os quais a vagabunda perambula, dois impulsos: a completa repulsa e a fascinação redentora. Uma vadia só presta para ser cuspida ou para ser redimida. Freud lançou a pedra: os homens quando amam não desejam, e quando desejam não amam. Amar a santa, desejar a puta, nunca o inverso: o senso comum trata de consolidar a dicotomia. Vadia boa é vadia arrependida ou vadia morta.

A vagabunda assombra pois sua perambulação confronta as pressuposições de uma “natural” disposição masculina à circulação e à distribuição dos genes (pressuposição defendida com furor – nada uterino – pelos psicólogos evolucionistas [oximoro?]). Essa mulher é um perigo, porque ela mostra que a libido feminina não são águas rasas e calmas. Pelo contrário.

Por outro lado, vestida assim, essa vadia só pode estar querendo. Só pode estar atrás de um pau que lhe vare as entranhas. Se lhe cobrimos o corpo com uma mortalha preta, se lhe cortamos o clitóris no cru, é para sua própria proteção.

Não são poucos os dispositivos retóricos e materiais para controlar o andar da vagabunda, sua vadiagem.

Por isso, a importância das Slut Walks que tem acontecido ao redor do mundo como forma de chamar atenção aos constrangimentos sofridos pelas mulheres. São marchas, antes de tudo, pelo direito mesmo de marchar, pelo reconhecimento de que os corpos devem ser livres para caminhar por onde quiserem.

Hoje, quando eu sair em caminhada com as outras vagabundas aqui em Florianópolis, não estou sendo irônica, me reapropriando do termo vagaba. Estarei usando o termo pelo que ele significa socialmente, de maneira, digamos, “literal”: uma mulher que vaga, que vai com quem quer. Ironia, por definição, é dizer uma coisa dizendo outra. Quem, hoje, marcha dizendo-se vadia, mas quer dizer outra coisa, esvazia a potência política da vagabundagem. “Eu digo que sou vadia mas na verdade estou dizendo que não sou”. Quer dizer o quê?

Eu prefiro assumir que sou vadia sim. Sem nenhuma ironia, pode me chamar de vagaba, thank you very much. Ironia, nessas horas, implica em que há algo de errado em ser vadia “de verdade”. E hoje nossa perambulação pelas ruas de Florianópolis é um indício da nossa vontade de reaver a cidade como o espaço possível da vagabundagem, da vadiagem e de outras artes e experiências.

 

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Sobre Casamentos, Ajuntamentos, Desajustes e Legalidade (com a ajuda de Jessica Valenti)

Um oitavo desvio à esquerda. Pergunta: o que é uma família?

Ontem, no site The Daily, a feminista blogueira Jessica Valenti (editora do blog Feministing) publicou artigo rebatendo os argumentos conservadores contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que tem por base a noção de que gays e lésbicas seriam maus pais.

O texto (que traduzi abaixo) é relevante para nós no Brasil, no momento em que se espera a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental, apresentada por Sérgio Cabral em 2008. O preceito fundamental aqui descumprido é o da igualdade: trata-se, hoje, no Brasil, desigualmente pessoas que estão em condição igual – a condição de formar um núcleo familiar de apoio, fundamentado no respeito mútuo (amor?).

Quando duas pessoas do mesmo sexo decidem formar um núcleo familiar, esse arranjo é, para efeitos legais, equiparado a um acordo comercial. Assim mesmo: Antonio e Paulo S.A. Virginia e Catarina Ltda. Laços afetivos são rebaixados à conveniência de um trato financeiro. Como se amor fosse commodity.

Ao lado dessa equiparação suja, contam-se em vários pares de mãos os direitos (previdenciários, tributários, de família) que não são estendidos a casais do mesmo sexo.

O que está em jogo é a redefinição do que entendemos por família. Teoricamente, um homem e uma mulher, desconhecidos, sem nenhum compromisso com a formação de uma unidade estável, podem se casar e, com isso, garantir uma proteção legal que, de outra forma, não lhes seria concedida. O critério final para definir família é de gênero: um homem e uma mulher. Que podem ter se casado com o único intuito de garantir vantagem financeiras (previdenciárias, fiscais etc). Conveniência heterossexual, não? Casamento por interesse: ninguém nunca ouviu falar nisso, certo? Quando os conservadores raivosos enviam as almas GLBTTT para o inferno candidamente obliteram o fato de que estão, na verdade, pleiteando uma “reserva de mercado”. Quem, hoje, pode se casar é que transforma o casamento em commodity.

Não quero com isso dizer que gays e lésbicas também não tirariam proveito dessa vantagem. Mas é isso, no fundo, que quero argumentar: liberdade de mercado. Se casamento, amor, família, hão de ser equiparados a commodities, que seja para todxs, sem exceção: não é esse o princípio liberal do capitalismo?

Mas, claro, quando se fala em casamento e em família não se fala em mercado, mas em valores. Interessantemente, valores são o que movem o mercado, há até uma Bolsa para eles. Desnudar, assim, a hipocrisia de argumentos que rejeitam o casamento gay em nome de “valores”.

O texto de Valenti ajuda a pensar outras coisas. Ela responde aos que negam o casamento entre pessoas do mesmo sexo com base no bem-estar das crianças – afinal, gays e lésbicas seriam, naturalmente, péssimos pais e mães, péssimos modelos, péssimos “transmissores de valores”.

A argumentação é boa, nos moldes americanos: dados, resultados de pesquisa etc. Mas para nós aqui abaixo da linha do Equador, entre as pernas do mundo, é preciso mais. Valenti se apoia em uma pesquisa de opinião realizada em 2009 nos EUA para afirmar que a sociedade estadunidense já não acredita em papéis restritos de gênero (sei não, alguém fez entrevistas no Alaska ou no Texas para chegar a essa conclusão?). No Brasil, o buraco parece ser bem mais embaixo (mais ou menos na profundidade de um pré-sal). Assim como somos cordialmente racistas, somos subepidermicamente machistas. Para Valenti a sociedade nos EUA já ultrapassou um estrutural sexismo; ela diz “já não acreditamos que papéis de gênero e casamentos tradicionais são os melhores”. A legislação é que está em descompasso com o avanço social.

Minha impressão, de um empirismo irresponsável, eu sei, fundamentada apenas na observação cotidiana e nos causos que me chegam aos ouvidos, é de que, aqui no Brasil precisamos que a legislação no “civilize”, pelo menos neste caso. Se o STF realmente ratificar a equiparação da união estável homo à hetero, terá iniciado uma nova trilha para a consecução da igualdade. Igualdade, diga-se, apenas relativa, pois a união estável ainda não garante todos os direitos que a instituição do casamento traz.

Mesmo com essa – virtual – vitória jurídica, continuaremos em uma batalha feroz entre os que se agarram a uma definição tradicional de família e os outros milhões que experenciam novas formas de organização de suas vidas. Uma batalha ainda infante (porque não se fala muito disso, ainda tabu) para que as regalias dadas às famílias sejam ampliadas para a sociedade como um todo, pois, no fundo, a grande questão é: o que há de tão importante no núcleo familiar? Por que alguém que prefere viver só não pode ter as mesmas vantagens de quem decide constituir família?  Até quando vamos continuar definindo família por laços consanguíneos ou por legitimação legal (no caso de casais heterossexuais que adotam crianças, por exemplo), ignorando as outras tantas afetividades entre pessoas, laços tão (ou, às vezes mais) indispensáveis e constituintes do humano quanto ser pai ou mãe ou tio ou avó? Pergunta retórica, é certo. Mas se temos que começar por algum lugar, que seja pelas questões que o mundo nos impõe.

A grande pergunta: é o direito que garante a família, ou é a família que garante o direito (valhei-me, Judith Butler!)?

Jose Luis David Navarro e Miguel Angel Calefato e sua licença para casar em Frias, Argentina. Navarro e Calefato se casaram depois que Cristina Kischner aprovou nova lei em 2010 que fez da Argentina o primeiro pais latino-americano a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo

 

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AS CRIANÇAS ESTÃO BEM
Estudos mostram que pais do mesmo sexo não só podem, mas realmente propiciam um ambiente ideal

Por Jessica Valenti, no The Daily

Todos nós queremos o melhor para as crianças – queremos que sejam felizes, saudáveis e livres de abuso. O único modo de garantir isso é dando a elas mães lésbicas.

No estudo mais longo sobre famílias lésbicas até agora, zero por cento das crianças – nenhuma! – relatou abuso, físico ou sexual. Dado que, na população em geral, 26% das crianças relatam abuso físico e 8.3% relatam abuso sexual, pode parecer que, se não quisermos ver crianças vítimas de abuso, a resposta é óbvia.

Essa notícia é a mais recente em uma longa fila de pesquisas que mostram que crianças de pais gay são felizes e bem ajustadas. Uma pesquisa publicada em 2010 no Journal of Marriage and Family, por exemplo, – um apanhado de 81 estudos parentais realizado em 5 anos – concluiu que as crianças criadas por pais do mesmo sexo são “estatisticamente indistinguíveis” das criadas por heterossexuais em áreas que incluem a auto-estima e adaptação acadêmica e social.

Está certo que esses estudos não querem dizer que tenhamos que dar início a um programa nacional de “mande uma criança para uma lésbica”, mas eles certamente anunciam a morte da última invectiva conservadora contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo: a noção de que as crianças precisam de uma mãe e um pai.

A crença disseminada de que a família nuclear heterossexual é melhor para as crianças há tempos é usada como cortina de fumaça para a homofobia e como argumento contra a igualdade de condições de casamento. Em 2006 a Corte de Apelações de Nova York decidiu contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque “a Legislatura racionalmente acredita que é melhor… para as crianças crescerem com um pai e uma mãe.” Acontece, porém, que não é bem assim.

A Academia Americana de Pediatria, a Liga para o Bem-Estar da Criança da América, a Associação Nacional de Serviço Social, a Associação Médica Americana e a Associação Americana de Psicologia dizem a mesma coisa: crianças de pais do mesmo sexo se dão tão bem quanto as criadas por heterossexuais. Até mesmo a ex-primeira-filha Barbara Bush, cujo pai fez pressão por uma emenda constitucional para banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, acabou de sair em defesa do casamento gay, apoiando publicamente sua legalização em Nova York.

Estudos que concluem que pais hetero são superiores apresentam graves falhas: ao invés de comparar casais hetero com casais homo, tais estudos contrastam casais hetero com mães solteiras heterossexuais e ignoram outras variáveis estruturais da família que nada têm a ver com gênero.

Então, por que insistir em uma visão antiquada baseada em má ciência? Porque, na verdade, não estamos falando sobre “o bem para as crianças”. Na Flórida, uma proibição de adoção manteve as crianças em lares provisórios enquanto pais gays esperavam em vão; essa proibição só foi revogada em 2010. E quando Washington, D.C. quis legalizar o casamento gay em 2009 a Arquidiocese da cidade suspendeu seus serviços de amparo às crianças e ameaçou parar os serviços sociais.

A crença retrógrada de que as crianças se dão melhor em famílias hetero tem mais a ver com papéis de gênero do que com a sexualidade. O grupo conservador Focus on the Family, por exemplo, em sua declaração contra o casamento gay, diz: “muitos dos valores que mães e pais passam para seus filhos é devido ao fato de que homens e mulheres são diferentes… pais tendem a encorajar as crianças a se arriscar e a superar limites e as mães tendem a ser protetoras e cautelosas.”

Mas já não acreditamos que papéis de gênero e casamentos tradicionais são os melhores; a maioria dos homens e mulheres entrevistados em 2009 pelo Instituto de Família e Trabalho discordam da ideia de que os maridos devem ser o cabeça do casal e as mulheres devem cuidar dos filhos em primeiro lugar. Outros estudos nacionais concluíram que pais e casais hetero casados que ignoram papéis de gênero tradicionais tendem a ser mais felizes do que pares convencionais; que casamentos onde os homens fazem mais trabalhos domésticos têm menos chances de acabar em divórcio, assim como casamentos em que ambos os cônjuges trabalham; e que, pela primeira vez na história dos EUA, os homens estão insatisfeitos com a relação trabalho-vida e querem passar mais tempo com seus filhos.

Se não mais apoiamos normas ultrapassadas de gênero, por que tais normas deveriam ter lugar nas leis? De fato, quando o juiz Vaughan R. Walker anulou a “Proposition 8” ele escreveu que a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo “existe como um artefato de um tempo onde os gêneros eram vistos como papéis distintos na sociedade e no casamento… esse tempo já passou.”

Isso não quer dizer que a família nuclear tradicional seja ruim – apenas quer dizer que ela não é a melhor. Deixando de lado as estatísticas da parentalidade lésbica, ninguém está realmente sugerindo que as crianças estariam melhor com pais gays do que com pais hetero. Mas se os que advogam a favor do casamento hetero se agarram com força à sua visão suprematista da família, não serão apenas as crianças que sofrerão – mas também pais, famílias e o progresso nacional.

Não há um único modo certo de ser pai e não há combinação mágica e gêneros que produza a criança mais bem ajustada. Fazemos o melhor que podemos ao amar nossos filhos e construir nossas famílias. Logo, se o objetivo é a felicidade das crianças, vamos nos concentrar nisso – e não em forçar as pessoas a um modelo antiquado de família que já superamos.

Tradução Ramayana Lira,com permissão da autora e do The Daily (texto original em http://bit.ly/huZGzU )

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O órgão sem corpo de Natalie Portman

Sétimo desvio à esquerda. Pergunta: quanto custa a perfeição?

Cisne Negro (Black Swan, 2010), dirigido por Darren Aronofsky, é um thriller mediano sobre a deterioração da lucidez de Nina (Natalie Portman) – bailarina que protagoniza uma revisão do Lago dos Cisnes -, seus delírios e sacrifício final. Parte de uma apreensão romântica da arte, tentando cruzar o enredo do balé com a figura do artista que se dá em holocausto em busca do belo e do perfeito.

O filme luta contra uma série de clichês do gênero. E perde a maior parte das batalhas. A preferência de Aronofsky por planos médios quer enfatizar o aspecto claustrofóbico de estarmos presas em uma mente que se degenera, mas as situações dramáticas forçadas e previsíveis domesticam o virtual impacto da imagem.

O que me impressiona em Cisne Negro, no entanto, é como ele se apresenta como uma alegoria da própria relação diretor x atriz. Thomas, o diretor do balé (Vicent Cassel) tortura Nina para dela extrair uma “verdade”, a verdade do cisne negro que ela, diáfana e ingênua como o cisne branco, não consegue expressar. Daí os jogos de manipulação emocional e esgotamento físico a que expõe a bailarina. É essa experiência limite de entrega e transfiguração de si que parece dar algum valor ao filme.

É impossível tirar os olhos de Natalie Portman durante o filme, até porque ela está em todas, todas as cenas, como presença na tela, ou fora do quadro, a câmera tomando-lhe o ponto de vista. A mesma câmera que passeia com ela pelos corredores do teatro, do apartamento que divide com a mãe, no metrô. Nesses passeios, enquadrada nos planos médios, Portman é toda pescoço, emulando a graça esguia do cisne.

Consta que Portman treinou para reduzir seu corpo ao arcabouço: os peitos murchos, costelas proeminentes. Um corpo elástico, que dobra sobre si mesmo – basta lembrar da cena em que a fisioterapeuta lhe massageia o diafragma, enfiando a mãos por baixo das costelas, uma mão-faca sem corte.

Presa nessa forma macilenta, Nina estaciona entre a infância e a adolescência, eterna menina-moça, sufocada pela proverbial mãe dominadora e frustrada (interpretada por Barbara Hershey como magnífico clichê). Fofolete feita de palitos de fósforo, guardada na caixinha cor de rosa de um universo onde as mulheres não podem, literalmente, crescer: o balé exige a leveza, a forma diminuta.

Menina-moça, Nina começa a enlouquecer vendo o sangue escorrer pelas unhas, espécie de menarca que lhe introduz na dor do mundo adulto, nos mistérios do desejo. Porque esse é um corpo que deseja, outros corpos, mas, antes de tudo, deseja o seu próprio desaparecimento. De maneira quase religiosa, tentar salvar a alma, a verdade, através da anulação do corpo. Como Nina, Natalie Portman dança na torturante ponta dos pés. A disciplina, a ortopedia da sapatilha se estende pelo corpo inteiro.

Antonin Artaud: “O homem é enfermo porque é mal construído. Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo que o corrói mortalmente, deus e juntamente com deus os seus órgãos. Se quiserem, podem meter-me numa camisa de força mas não existe coisa mais inútil que um órgão. Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade.” (“Para acabar com o julgamento de deus”)

Aronofsky e Portman não criam um corpo sem órgão. Pois aqui, esse corpo é dado como oferta transcendente à verdade da beleza. Nina é, antes, um órgão sem corpo. Órgão no sentido do instrumento, da ferramenta, organum. Um órgão que “serve” para expressar essa verdade, órgão-servo.

Ao final do filme, seu canto de cisne: “I was perfect”. A perfeição da submissão do corpo ao amo.

Faz-me lembrar de um trecho de um poema da Sylvia Plath:

It is a statue the orderlies are wheeling off.
I have perfected it.
I am left with an arm or a leg,
A set of teeth, or stones
To rattle in a bottle and take home,
And tissues in slices–a pathological salami.
Tonight the parts are entombed in an icebox.
Tomorrow they will swim
In vinegar like saints’ relics.
Tomorrow the patient will have a clean, pink plastic limb. (“Surgeon at 2 am”)

(É uma estátua o que os auxiliares levam na cadeira de rodas.
Eu a aperfeiçoei.
Fiquei com um braço ou uma perna,
Um conjunto de dentes, ou pedras
Para sacolejar na garrafa e levar para casa,
E tecidos em fatias – um salame patológico.
Hoje à noite as partes estão enterradas na geladeira.
Amanhã nadarão
Em vinagre, como ex-votos,
Amanhã a paciente terá um membro limpo, rosa, de plástico.)

Thomas/Aronofsky, cirurgião que cria um órgão onde, antes, havia um corpo.

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A inexorável solidão da mulher que come salada

Sexto desvio à esquerda. Pergunta: o que quer uma mulher que, só, come salada e sorri?


O blog The Hairpin publicou um post com imagens de mulheres sozinhas comendo saladas. Quase um clichê da propaganda. É o famoso “tempo para si”, para se cuidar.

Nas fotos elas sorriem, garfos levantados em direção à boca, naves saudáveis prontas para pousar. Acompanhando as saladas, um copo de água, um copo de suco. Não, elas estão rindo, na verdade, gargalhando, uma felicidade que me contagiaria se uma pergunta não ficasse me incomodando, como mosca preta sobrevoando a boca, que insiste em pousar, como nave sórdida:

Toda essa felicidade por comer salada?

Toda essa felicidade?

Toda?

Passei o natal em Belo Horizonte, pulando de boteco em boteco, comendo torresmo e linguiça e bebendo cerveja. Eu sorria. Não, eu ria, gargalhava.

Eu sei, a patrulha vai soar as sirenes e vai dizer que no fundo do prato de salada eu encontro meu bem-estar, eu encontro a forma do meu corpo – afinal, o que é estar “em forma”? Meu corpo tem forma, não é informe, pode até ser disforme, de acordo com a fórmula, mas todos os corpos estão “em forma”, em sua forma, em sua singularidade.

Eu como salada, no mais das vezes, por obrigação. Aqui e ali alguma mistura de vegetais, frutais ou legumes se espalha pelas minhas papilas, acordando-as, depois roçando nelas, lúbricas. Mas, em geral, saladas são inodoras e razoavelmente insípidas. Pelo menos são coloridas, porém inanes, quase frígidas.

Comer. Pensar no sentido sexual dessa palavra em relação às saladas me leva à conclusão de que não se pode “comer” saladas. No máximo, um amasso ao pé do muro. Ou pior, lembrar que salada se come sozinha, rindo. A mulher sozinha e sua salada, refeição masturbatória que possivelmente não satisfaz.

A mulher sozinha sorridente e sua salada se merecem. Uma contenta a outra, com a promessa de que transformará a carne em pó, o sangue em água, a vida em uma brisa morna que não diz nada a não ser seu próprio vazio.

Viverão eternamente sós, nesse seu tempo para si, para se cuidar e renunciar aos vícios. A salada sabe do seu destino, em breve será parte dessa mulher só que só ri, em um transe verde-alface. Mas talvez a mulher solitária não conheça o riso torto do torresmo e a languidez da linguiça, orgíacos, suicidas. Acho que a mulher só quer viver para sempre.

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(Quase) Todas as Cores de Dilma

Um quinto desvio à esquerda. Pergunta: de que cor faltou falar a presidenta Dilma Rousseff em sua posse?

Quando a candidata eleita Dilma Rousseff entrou no plenário do Congresso Nacional começamos um novo ciclo histórico. A primeira mulher a ser empossada como presidente da República Federativa do Brasil carrega com ela oito anos de uma administração que mudou a forma como se vê a função e o desempenho do Estado e a promessa de colorir as formas desenhadas pelo ex-presidente Lula.

Color-by-numbers. Livros de colorir onde a cada cor corresponder um número. É só pintar. O livro de colorir do Lula que Dilma recebe, no entanto, ainda que definido em contornos, é desenhado na maleabilidade do grafite. Isso quer dizer que é possível ainda transformar decisões e riscar por cima de vazios reveladores de omissões.

A paleta de cores será definida em jogos políticos. O PMDB, uma espécie de branco, que contamina as outras cores, tirando-lhes o viço e, até, transformando-as em branco mesmo, um branco que se quer neutro para não causar melindres. PSDB e DEM não serão o preto antinômico. Arrisco dizer que estão mais para um cinza fosco, que, sem anular o desenho, lhe tirarão parte do viço estético. O PV, provavelmente, se mostrará um verde-bandeira, aquela cor de lápis que nunca sai da caixa a não ser para isso: pintar a bandeira, monocromático e monotemático.

O PT, como sugere seu vermelho, indica um alerta. É preciso cuidar para que paspalhos sabichões não tomem o desenho para sim, transformando o governo em um reino de algas pirrófitas que sufocam a vida no mar (de possibilidades).

Ao passar em revistas as tropas das forças armadas, a instituição que durante a ditadura a perseguiu, Dilma protagonizou uma das mais pungentes manifestações de consolidação da democracia no Brasil. Chegamos, finalmente, ao momento em que feridas começam a efetivamente sarar, a ponto, inclusive, de poder suscitar a discussão sobre o papel (ou mesmo necessidade) das forças armadas. Qual a sua verdadeira vocação em um país que se declara pacífico e que se constrói democrático? Patrulha de fronteira, reforço à segurança urbana? Está na hora de começarmos a pensar em profissionalizar as forças armadas, acabando com o serviço militar obrigatório.

Ao receber a faixa do ex-presidente Lula, operário sem curso superior, Dilma também participa dessa reconfiguração do imaginário nacional em relação à mobilidade social. Se eles podem, qualquer um pode, né? Ou, antes, um qualquer pode, um ainda sem nome, ainda não nascido, um que é só potência. Lula e Dilma restauraram a potência da imaginação que se expressa no livro de desenhos.

Em seu discurso no Congresso Dilma falou de (quase) tudo. Consolidação da democracia, compromisso com o desenvolvimento e erradicação da pobreza, moralidade administrativa, educação, saúde, segurança, cultura (os dois últimos temas – em especial cultura – pouco discutidos, ou discutidos de maneira atravessada durante a campanha). Dilma disse acreditar na engenhosidade do povo brasileiro, em nossa criatividade – lembro sempre do Paulo Emílio Sales Gomes e nossa “incapacidade criativa em copiar” em cinema; não seria esse, exatamente, o impulso de criação que nos caracteriza, em nossa falta? Não a mera “cópia”, mas a transformação criativa, a bastardização.

Salman Rushdie: “Como a novidade penetra no mundo? Como é que nasce? De que fusões, transformações, conjunções é feita? Como sobrevive, extrema e perigosa como é? Que concessões, que acordos, que traições de sua natureza secreta tem ela de fazer para repelir a fúria das multidões, o anjo exterminador, a guilhotina? Nascer é sempre uma queda?” (Versos Satânicos)

Dilma fala várias vezes em criatividade, na indústria, na tecnologia, na cultura. É hora, pois, de fazer o novo entrar no mundo, presidenta. O novo em forma de pautas para a discussão pública, o novo em forma exatamente de um espaço público onde se possa discutir a novidade, para que ela não morra na praia, sereia deusa-maia-rabo-de-baleia. Esse espaço público é o museu ao ar livre onde se expõe o livro de colorir para que possamos, juntas, decidir matizes e traços e rastros do que passou mas que precisa ser recuperado.

Nascer é sempre uma queda. No vazio.

Dilma não vestiu vermelho. Usava algo meio creme, discreta. Andar resoluto, queixo apontado para o alto. Parecia à vontade. Beijava e abraçava aliados com afeto e abraçava e beijava inimigos políticos sem afetação. Procurou manifestar carisma, em acenos e em pequenos desvios de protocolo. Nós amamos essas pequenas transgressões, esses dribles abusados. Ao contrário do que dizem na websfera, não chegou a ser ofuscada pela barely legal Marcela Temer (a não ser na imaginação sexista de três ou quatro indivíduos). Paula, a primeira-filha, acompanhando-a no Rolls Royce presidencial, consolidou a matriz (perdão pelo trocadilho) da imagem de Dilma: mãe-coragem e mãe-carinho. A mão que afaga, que trabalha, que pune. Assim aparecem seus contornos no livro de cores.

O grande perigo, nesse momento: daltonismo político. Deficiência que faz perder a sensibilidade para as cores e aparece como um consenso quase cego. A vitória de Dilma precisa significar, também, a vitória do dissenso democrático. Dentro e fora do governo.

Dilma, nessas suas primeiras horas, pois, mostra suas cores. Uma omissão, contudo. E contundente.

Em seu discurso ela disse:

“O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ele hoje. Do tamanho da participação de todos e de cada um:

Dos movimentos sociais,

dos que labutam no campo,

dos profissionais liberais,

dos trabalhadores e dos pequenos empreendedores,

dos intelectuais,

dos servidores públicos,

dos empresários,

das mulheres,

dos negros, dos índios e dos jovens,

de todos aqueles que lutam para superar distintas formas de discriminação.”

O discurso omite gays e lésbicas e portadores de deficiência, dois dos mais fortes grupos de combate à discriminação. Como explicar essa omissão? Será que essas diferenças ainda não foram completamente entendidas? Há ainda medo em se comprometer?

Deve ser no governo Dilma que precisamos estabelecer a conquista de direitos para os sujeitos GLBTTT. Assim como o aborto, essa deve ser a pauta mais polêmica a ser enfrentada. De todas as cores, Dilma esqueceu de mencionar o arco-íris.

É possível medir a maturidade de uma sociedade pela sua capacidade de administrar as diferenças. O Brasil, pelo que parece, caminha a passos ainda lentos.

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